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Reportagem| Abraços suspensos. Quando o tempo é curto para esperar o fim da pandemia

Aos idosos a pandemia tirou-lhes aquilo que mais apreciavam: o contacto com os seus familiares. E agora, no ocaso das suas vidas têm de lidar com uma infame solidão. A ver os dias passar com a esperança que o vírus um dia acabe e eles possam abraçar de novo os seus familiares; sem barreiras, sem vidros, sem fatos de proteção…sem máscaras.

 

A Dona Laurinda tem 97 anos. É residente num lar de idosos há oito anos. Foi mãe de quatro filhos, mas já só tem duas vivas e ambas, a viverem no estrangeiro. Os netos são 8 e os bisnetos 12, a mais pequenita, com sete meses. Há um ano que não via a sua família. Não só pela pandemia, mas também por motivos de saúde que no último ano, a debilitaram.

Entre tanto as visitas nos lares foram retomadas e aquele domingo, quente demais para o mês de abril, tornou-se um dia feliz. Depois de um ano sem ver a sua família voltou a ver não só a sua filha, mas também a neta e as duas bisnetas, uma das quais ainda não conhecia. Quatro gerações duma família unida pelos laços da afetividade, mas separadas pela indolência do vírus.

As palavras saiam atropeladas. A D. Laurinda já ouve mal e as máscaras não facilitam a fluidez da conversa “como eu gostava ter-te no meu colinho minha pequenita”, dizia enquanto estendia os braços para tentar tocar na bebé de sete meses.

É difícil fazê-los perceber que esta realidade é a única possível. É difícil fazer perceber que não pode tocar, abraçar, beijar, dar colinho. “é injusto estar no fim da vida e ter de viver assim”, ouve-se  como um pensamento que soo a desabafo e que se escapou pela boca como uma forma de apaziguar o que sentia naquele momento.

 

Aqueles 20 minutos em que esteve com as “suas filhinhas” como as chama a todas, souberam a pouco, a muito pouco. Pensando que podia funcionar de vez em quando ainda deixava sair um pedido às funcionárias “meninas, mas eu posso ir lá fora só um bocadinho para estar mais pertinho e despedir-me delas lá fora, não posso?” E no seu  interior, desejava que a resposta fosse sim. Mas é demasiado arriscado e tem de se conformar com ver a sua família daquela maneira, através de um acrílico e separada por dois metros de distância.

Sabemos que apesar das circunstancias foi um dia feliz para aquela família. Conseguimos sentir  que a visita serviu para amaciar o coração e acalmar as saudades. Mas a realidade continua a ser a mesma e a D. Laurinda irá continuar a viver os seus dias à espera que o fim-de-semana chegue para voltar a ver as suas meninas “à janelinha” e sonhando com o dia em que poderá voltar a abraçá-las.

A solidão
É uma prisão sem grades;
É a ausência de uma companhia;
É um vazio durante o dia;
É o silêncio da noite;

É o eu sem nós;
É o silêncio da voz;
É o frio da madrugada;
É o tudo sem nada;

É a dor da infeção;
É a tristeza do isolamento;
É morrer por dentro;

É apenas você e Jesus;
É uma cruz pesada;
É a certeza de que não somos nada.

 Adailton Ferreira

 

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