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A verdade enquanto verificabilidade supervisionada: eis a receita da Wikipédia para o combate à desinformação

A 11 de maio de 2021 a Wikipédia em língua portuguesa comemora 20 anos de existência. Em termos sociológicos, diz-se que com vinte anos está cumprida uma geração. Nesses termos, a Wikipédia está agora a entrar na sua segunda geração. Tempo esse que coincide com um mundo à procura de soluções para o combate à desinformação.

Avi Tuschman, investigador da universidade de Stanford e especialista em antropologia evolucionista, na perspetiva da inteligência artificial, defende que a solução para a atual “epidemia” de fake news pode vir da “sociedade civil”.

Para sustentar esta ideia, o investigador invoca a Wikipédia, um projeto colaborativo e independente que escapa, por se tratar de uma fundação sem fins lucrativos, à pressão política (governos e partidos) e financeira (ao contrário de outras plataformas digitais que procuram, fundamentalmente, lucros). Para este investigador, que aqui cito em português-brasileiro para manter fidelidade à fonte,

O aspecto mais distópico de nossa época não é o fato de enfrentarmos grandes desafios, mas o de não termos crenças em comum suficientes que nos possibilitem encarar transições políticas incruentas, hesitação quanto a vacinas, tensões raciais e ainda mudanças climáticas, tudo ao mesmo tempo. Hoje em dia, nosso corpo político sofre com uma infecção informativa que afeta nossa capacidade de responder de modo adequado a todas essas graves e simultâneas ameaças (Tuschman, 2021, §4).

De facto, os tempos atuais estão marcados por “informações errôneas [que] são injetadas a todo instante em nossos canais de social media para manter a sociedade dividida, desconfiada e paralisada” (Tuschman, 2021, §5). E para isso também concorrem os algoritmos, estruturas de recomendações guiadas por inteligência artificial que nos conduzem a conteúdos que

exacerbaram a polarização política. E até governos estrangeiros trabalham na manipulação de algoritmos para interferir nas eleições estrangeiras – foi o caso nos EUA, tanto no pleito de 2016 quanto no de 2020. Informações errôneas financiadas pela Rússia e catapultadas a partir do YouTube continuam a gerar bilhões de acessos após os anos de eleição, fomentando movimentos conspiratórios que o FBI considera uma ameaça terrorista doméstica (Tuschman, 2021, §5).

Paralelamente a esta dinâmica, encontramos atualmente um “ecrã em convergência”, onde televisões amplificadas pela Internet se aliam a redes sociais digitais, gerando vetores informacionais assentes em eventos contingenciais: a “infodemia” da covid-19 é aqui um bom exemplo. Esta dinâmica terá contribuído, no entender de Tuschman (2021), para um dado alarmante gerado pela desinformação: cerca de “60% das mortes estimadas seriam evitáveis. O próprio diretor da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, reconheceu” (Tuschman, 2021, §6).

O que é que aconteceu para que a desinformação ganhasse tamanho terreno? Para Tuschman, o trio Google-YouTube-Facebook coloca um desafio ao mundo informacional, na medida em que “organiza as informações globais de acordo com algoritmos que se baseiam na popularidade” (Tuschman, 2021, §8).

Isto comporta um problema de fundo, pois apesar dos inúmeros benefícios desses sistemas sociotécnicos, essa popularidade ‘pretendida’ apresenta “uma relação incômoda com a veracidade: conteúdos virais espalham rapidamente informações pouco confiáveis. Mais de 25% dos vídeos mais vistos no YouTube em inglês sobre o coronavírus contêm desinformação” (Tuschman, 2021, §8).

Ao atuarem diretamente sobre as emoções primárias, as notícias falsas acabam por ter um impacto social mais incisivo, já que “se alastram seis vezes mais rápido do que as informações verídicas” (Tuschman, 2021, §8).

Em certo sentido, é isso que nos revela agora este investigador: resolver a “crise de informações errôneas requer uma terceira entidade “mágica” que não tenha incentivos para manipular as informações por motivos econômicos ou políticos” (Tuschman, 2021, §10).

No seu entender, essa entidade já existe e é, também, tecnológica. Essa “não evoluiu para organizar conteúdos a partir da popularidade. O quinto maior website do planeta (sem contar a China) organiza as informações de acordo com fatos documentados de modo confiável. Está acima de Amazon, Netflix e Instagram. Falo da Wikipédia” (Tuschman, 2021, §11).

O leitor pode agora desconfiar, questionando: qual é a precisão da Wikipédia? Podemos confiar nas suas comunidades? Tuschman é contundente a este respeito, ressalvando ainda assim algumas questões que necessitam de um contínuo aperfeiçoamento:

Em 2005, um estudo cego publicado na revista Nature concluiu que a Wikipédia não continha erros mais sérios do que a enciclopédia Britannica. Em 2007, um periódico alemão replicou esses resultados em relação à Bertelsmann Enzyklopädie e à Encarta. Em 2013, a Wikipédia já havia se tornado o recurso médico mais consultado do mundo, com 155 mil artigos escritos em mais de 255 idiomas e 4,88 bilhões de acessos a páginas naquele ano. Entre 50% e 70% dos clínicos e mais de 90% dos estudantes de Medicina hoje utilizam a Wikipédia como fonte de informações de saúde. (Tuschman, 2021, §12)

Para Esteves (2012), a grande questão da comparação com outras enciclopédias nem sequer é tanto a questão dos erros e dos acertos, mas antes a da continuidade de edições, ou seja, o facto de a Wikipédia estar sempre a ser editada e atualizada. Nessa comparação entre a Wikipédia e a enciclopédia Britannica, esta última “teve pouco menos erros factuais que a Wikipédia (123 a 162)” (Esteves, 2012, §30), mas o mais espantoso é que em temas como “Lipid” [Lipídeo] a Wikipédia não continha nenhum erro contra três da Britannica e que seis anos depois desse mesmo estudo esse mesmo verbete (Lipid) já teria sido “modificado 1 750 vezes” (Esteves, 2012, §30).

Tuschman e Esteves não são casos únicos neste elogio à Wikipédia. O jornal Washington Post reparou na abordagem da Wikipédia quanto à covid-19 como “um raio de esperança em um mar de poluição” (Tuschman, 2021, §13). Mas já em “O ethos wikipedista como modo de combate à desinformação” (2021), artigo no prelo da Revista Liinc, eu próprio acabei por desenvolver a questão da importância da neutralidade na produção e edição de verbetes na Wikipédia, bem como as proximidades existentes entre um ethos cientista e um ethos wikipedista. Nessa análise, concluí que o sucesso da Wikipédia no combate à desinformação, às fake news e ao problema da pós-verdade partia, fundamentalmente, de uma dinâmica certeira: uma postura ética entre os wikipedistas que tinha como objetivo fundamental a neutralidade, a verificabilidade e a descrição isenta, não misturando factos com ilações. Apesar de algumas lacunas, sobretudo ao nível técnico e também ao nível de alguns consensos difíceis de obter entre editores sobre temas fraturantes (como política, racismo, xenofobia ou história), a hierarquia formal da Wikipédia, um conjunto alargado de políticas e diretrizes que se transformam em quase “leis”, uma comunidade humana investida por pilares fundacionais neutrais e um conjunto de técnicas, scripts e bots que ajudam a reverter ações danosas (vandalismo), impedem quase totalmente a entrada da desinformação no sistema, tornando-a residual.

Ainda assim, e mais especificamente, aquilo que em meu entender fez da Wikipédia um bastião ao serviço de uma ética contrária à da desinformação são, fundamentalmente, três grandes linhas orientadoras que constam dos seus pilares fundacionais: 1) a necessidade de adoção de um ponto de vista neutro; 2) a necessidade de fazer cumprir, sempre, a verificabilidade; 3) um mantra-guia que conduz o contribuidor para um “nada de investigação inédita”.

Com a primeira, a Wikipédia consegue uma perspetiva cética (ceticismo organizado), e sobretudo não emocional, entre sujeito escritor e objeto descrito. Com a segunda, evita-se a informação produzida à medida, pois a sujeição à verificabilidade de fontes terceiras coloca sempre o ónus no facto já produzido. Com a terceira, a Wikipédia obriga à descrição ou redação de factos, impossibilitando ou diminuindo ao máximo a possibilidade de ilações e de juízos de valor e, com isso, impedindo a criação/invenção de ideias, opiniões ou conceitos.

De modo resumido, podemos concluir que com a Wikipédia a verdade consegue-se com verificabilidade, todavia descrita de forma neutral axiologicamente. Pode-se sempre questionar: mas “qual verificabilidade”, se a de A, a de B ou a de C. Mas até aí as suas regras são profícuas: a versão dominante dos factos apurados em fontes terceiras deve prevalecer, ainda que o contraditório ou a versão minoritária deva estar presente sempre que possível.

A grande diferença entra esta e as outras gigantes digitais está no farol motivacional que lhes serve de base. O farol-popularidade (comuns no Facebook ou no YouTube) conduz, a todo o custo, ao sucesso numérico e ao lucro; o farol-verificabilidade conduz, por seu turno, à seriedade e factualidade. Neste ponto, Tuschman é contundente: ao se comparar os artigos da Wikipédia sobre “Vacinas e autismo” com os cinco primeiros resultados para essas palavras (em inglês) no YouTube, percebe-se que neste último cerca de “32% dos vídeos sobre vacinas se opõem à imunização” (Tuschman, 2021, §16). E isto acontece precisamente pelo facto de o algoritmo do YouTube, ao invés da estrutura sociotécnica que subjaz à Wikipédia, ter como foco a popularidade e a sedução pela perspetiva emocional e não pelo farol da factualidade.

O problema da desinformação é, como nos lembra Tuschman, um problema que nos custa muito, inclusive vidas. Mas há aqui um sinal de esperança. Se os meios de comunicação em geral, e os memes, blogs ou outros portais de conteúdo em particular, obedecessem a princípios wikipedistas (neutralidade, verificabilidade e descrição axiologicamente neutra) e de código aberto e vigilante, dificilmente se imporia esta pandemia desinformativa.

Portanto, celebrar os 20 anos da Wikipédia é introduzir, no debate sobre a desinformação, um ethos e uma estrutura capaz de a superar. Por estas razões, obrigado à Wikipédia pelo exemplo ao longo destes vinte anos de existência. Que a sua forma de gerar “verdade” através da verificabilidade, da descrição neutral e da supervisão comunitária e ética caia sobre o mundo informacional atual.

Pedro Rodrigues Costa, sociólogo e investigador

Referências:

Esteves, B. (2012, julho). Cooperação conturbada: quem são e por que brigam os editores da Wikipédia em português. Folha de São Paulo. Retirado de https://piaui.folha.uol.com.br/materia/cooperacao-conturbada/

Tuschman, A (2021, 23 de abril). Crise da desinformação será superada a partir de exemplos como a Wikipédia, defende pesquisador. GZH Comportamento. Retirado de https://gauchazh.clicrbs.com.br/comportamento/noticia/2021/04/crise-da-desinformacao-sera-superada-a-partir-de-exemplos-como-a-wikipedia-defende-pesquisador-cknt1r220002w016uafnlfykm.html

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  1. a busca pela popularidade está a criar desinformação. Deveria haver regulação em todas as plataformas pelos próprios governos ou estados que lhes permitem licença

  2. Os seus artigos são sempre bastante esclarecedores. Obrigado Dr. Pedro Costa

  3. Artigo extraordinário. Percebe-se mais aqui o problema das fake news do que em dezenas de artigos sobre a matéria. Parabéns.