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Reportagem| “Vejo as famílias a passearem pelo rio e imagino como será ter a minha família de volta”

José Javier Torres Díaz é um jovem venezuelano a quem a vida já lhe ofereceu varias pancadas. Vive em Portugal desde o ano 2019. Para aqui chegar o caminho foi longo e cheio de percalços. Viveu toda a sua vida na Venezuela, numa terra chamada Barquisimeto. Cresceu num bairro pobre e perigoso. Onde a realidade é demasiado dura e onde a palavra “oportunidade” quase nunca é pronunciada e sonhar torna-se numa meta demasiado difícil de alcançar.

 

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Apesar desta realidade que desde sempre o circundou José sempre sonhou, sempre quis um destino melhor para si do que aquele que as ruas perigosas do bairro lhe ofereciam “desde muito criança soube que não queria pertencer ao mundo da criminalidade que, infelizmente, tenta todos os jovens que como eu, nascem e crescem nos bairros latino-americanos”, afirma.

José chegou a Portugal, especificamente a Monção, no dia 03 de novembro de 2019. Mas até conseguir pisar solo europeu passou por aquilo que podemos apelidar de uma autêntica via sacra “a minha história é muito longa e cheia de percalços”, assente.

Aquilo que recorda da sua infância é muito nítido “eu sempre tive aspirações de sair do meu bairro. Jamais me senti parte dele. Eu estudei advocacia, mas não consegui acabar o curso. Tive de procurar trabalho para ajudar em casa, a situação era bastante precária. Nesse emprego foi onde conheci a minha esposa (Rosa) ela tem-me ajudado muito, nos piores momentos da minha vida”, conta deixando transparecer imensa saudade.

José e a sua esposa tiveram o seu próprio negócio de restauração “foi ali onde aprendi a ser pizzaiolo. Há mais de 10 anos”. O negócio teve os seus altos e baixos e depois de alguns anos, com a agudização da crise venezuelana “o negócio caiu e tivemos que emigrar pela primeira vez”. Naquela altura José e a sua esposa já tinham uma filha em comum, Isabella, de um ano de nascida “a minha filha com dois meses teve uma doença respiratória muito grave. Quase a perdemos. Ela conseguiu ultrapassar a doença e com 8 meses de idade ficou completamente curada, mas como família precisávamos de uma oportunidade melhor e empreendi viagem para a Colômbia. Eu fui sozinho e passado alguns meses elas foram ter comigo. Ali estivemos dois anos”.

A realidade dos países latino-americanos é difícil. E apesar de José e a sua família terem encontrado a estabilidade de que precisavam a situação na Colômbia também começou a dificultar os planos da família “quando naquele país a situação começou a ficar difícil e perigosa decidimos voltar para a Venezuela. Eu naquela altura tinha um negócio de compra e venda de produtos. Ou seja, eram produtos que comprava na Venezuela e vendia na Colômbia. Quando decidimos regressar à Venezuela eu decidi investir tudo aquilo que tinha amealhado na Colômbia durante aqueles anos para fazer a viagem de regresso e comprar mercadoria. Mas naquela viagem perdi tudo. Roubaram-me tudo, a mercadoria e o dinheiro que levava comigo. Perdi dois anos da minha vida. Fiquei sem o investimento. Começámos do zero, novamente, na Venezuela”.

Confessa que aquilo não o derrubou “comecei do zero, é verdade, mas disse a mim próprio que aquilo não me ia parar. Continuei e tentei por segunda vez. Voltei a pegar no negócio de compra e venda até conseguir reerguer algum património. Vivíamos na casa da minha sogra. Continuei a trabalhar porque eu queria ir para outro país. Um país melhor, com oportunidade para a minha família”, conta.

 

Ao fim de três meses José conseguiu poupar o dinheiro que precisava e empreendeu viagem até ao Peru “comecei a trabalhar com uns amigos peruanos que tinha conhecido pela internet e eles tinham um restaurante e foi ali que comecei a trabalhar. A ganhar 15/20 soles ao dia (mais ou menos 7 euros ao dia). Depois encontrei mais um trabalho, num hospital, a fazer limpeza e os fins-de-semana ia para os estádios de desporto para vender bebidas. Assim, consegui ter três fontes de rendimento e aquilo que pensava que ia conseguir em seis meses, consegui-o em três. E levei a minha família para junto de mim”.

José relata que o início em Peru foi favorável mas depois de um tempo, e com o aumento da migração venezuelana para aquele país “começámos a ser alvo de muita discriminação. As oportunidades não apareciam. Perdi os meus dois empregos. Essa etapa foi muito difícil, muito dura. Tive de me virar e arranjei trabalho como pescador. Não conhecia nada de essa arte, mas foi o que apareceu. Apesar de ser um trabalho muito duro não me arrependo porque aprendi muitas coisas”, confessa. .

Naquela altura a esposa de José ficou grávida do filho mais novo, Luca, que atualmente tem 1 ano e 8 meses e a quem José só conhece por videochamada “apesar das dificuldades que estávamos passando a gravidez foi uma bênção. Eu não queria que a minha esposa trabalhasse porque a gravidez passou a ser de risco mas ela trabalhou sempre, até aos 8 meses de gravidez, ela trabalhava num restaurante. E eu continuava na pesca e a fazer outros trabalhos que aparecessem”.

Durante a sua estada em Peru, José acabou por conhecer uns amigos espanhóis que lhe fizeram o convite para vir para a Europa “eu, naquele momento, tinha dinheiro para metade do bilhete e eles completaram a parte que me faltava. Eu ia ir para Sevilha, ou Vigo, mas acabei por vir para Salvaterra do Minho, em Monção”.

José morava em Salvaterra do Minho e trabalhava em Monção. Confessa que chegou a Monção com cinco euros no bolso e não sabia onde iria dormir. Mas acabou por conhecer um Padre que o deixou dormir na Casa Paroquial e arranjou trabalho na copa duma pizzaria em Monção.

“Assim fui equilibrando a minha vida graças a ajuda que o senhor Fernando (o seu patrão) e o padre me deram. Mas a minha esposa continuava sozinha em Peru com a minha filha e com o meu filho recém-nascido. A ele não o conheço, já tem 18 meses”, desabafa com voz chorosa.

Rosa, a esposa de José  teve o filho mais novo de ambos no Peru, completamente sozinha “ela teve de deixar a nossa filha Isabella ao cuidado de uns amigos e foi ter o bebé no hospital. No mesmo hospital onde eu trabalhei. Essa parte da nossa história foi muito dura. Ela teve o nosso filho sozinha. Sem apoio de ninguém. Eu como pude pedi aos meus antigos colegas que ainda faziam limpeza no hospital que tentassem olhar por ela e dar-lhe algum conforto. Que não a deixassem sozinha e que me dessem alguma informação. Isto foi o dia 14 de dezembro de 2020. Ela esteve internada vários dias porque o parto foi de alto risco”.

Passados dois meses José conseguiu enviar dinheiro para a sua esposa regressar à Venezuela e ter a companhia da família “essa viagem não foi fácil. Foi de autocarro, cinco dias, com os nossos filhos, Isabella de 5 anos e o nosso filho de dois meses. Nessa viagem lhe roubaram o pouco dinheiro que eles levavam, tiveram de passar a pé um rio e outro tanto a pé pelo monte. A viagem que os migrantes fazem entre Peru e Venezuela é muito difícil. A minha mulher é uma guerreira”, afirma entre lágrimas.

 

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E desde aquele então a família de José está na Venezuela e ele em Portugal. Estão a tentar tirar os passaportes “para que  a minha família possa vir ter comigo, mas não é fácil. No nosso país nada é fácil. Tirar documentos é uma autêntica odisseia.. Já nos pospuseram a data para ir tirar o passaporte três vezes, não é fácil. É tudo tão difícil! Já paguei por duas vezes o processo para tirar o passaporte e chega ao fim e não nos dão nada. Já perdi dinheiro por duas vezes. Um dinheiro que é muito difícil de amealhar”, desabafa.

José veio à procura de uma vida melhor. Ele não ajuda só a sua mulher e filhos, também a sua mãe e uma irmã que sofre duma doença degenerativa e está quase prostrada numa cama “por isso eu estou muito agradecido com Deus pelas oportunidades que me tem dado. Tenho muita vontade de estar com a minha família mas estou a lutar. Deus sabe o que faz e a mim toca-me continuar, sem parar”.

Trabalha num estabelecimento de restauração “mas estou muito grato por toda a ajuda que tenho recebido. Não só do meu patrão, mas também de pessoas que ajudam diariamente. Refugio-me no trabalho porque quando estou sozinho a tristeza me invade. Quero muito conseguir trazer a minha família”.

Quando lhe perguntamos se é fácil ter dinheiro para ajudar a sua família e ter dinheiro para viver dignamente duvida na resposta “eu vou comprando as minhas coisas com aquilo que vai sobrando. Mas para mim o primeiro é a minha família. Eu agora não tenho frigorífico, nem dinheiro para comprar comida. Como no restaurante. Sempre fica alguma comida, ou um pedido que não esteve correto e é devolvido e eu peço para para me guardarem e levo para casa e depois vou comendo. Porque eu não gosto de ver comida a ser deitada fora, no lixo, não suporto ver isso. Mas o meu patrão sempre nos meus dias livres convida-me para comer com ele”.

Atualmente dorme num colchão “ainda não consegui ir buscar a cama que me ofereceram. Mas tenho de ir comprando as minhas coisas. Máquina e lavar, eletrodomésticos. Mas não é fácil, para já não consigo. Vivo com aquilo que tenho e com as coisas que muito amavelmente as pessoas me oferecem”.

 

Quando José fala das suas carências ficamos com a sensação que existe alguma vergonha à mistura. Porque José não quer ser um fardo para ninguém. José só quer trabalhar e conseguir o dinheiro para trazer a sua família. Ainda não sabe quais serão as próximas restrições que poderão vir por causa do Coronavirus “mas a problemática de trazer a minha família vá muito mais além das restrições. O tema dos passaportes é muito complicado num país como a Venezuela”.

José quer fazer um apelo às instituições e alertar que há muitos venezuelanos nesta situação. Pede que as instituições sejam garantes do apoio que os emigrantes precisam e que estas situações tão difíceis de famílias separadas possam ser resolvidas com mais celeridade.

Segundo dados da ACNUR o número de refugiados imigrantes da Venezuela em todo o mundo atualmente é de 3,4 milhões (dados ano 2019). Milhões de pessoas que fogem do seu país de origem a pé, a nado, à procura de uma vida melhor, à procura de paz!

 

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