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Reportagem| Nelson Cerqueira “desistir de Ponte da Barca, nunca”.

Nelson Cerqueira é um jovem empresário barquense ligado ao mundo da noite que continua a lutar. A pandemia tem penalizado fortemente alguns setores da economia como hotéis, cafés, bares e discotecas. Nelson também tem sentido estas dificuldades e garante que apesar de não ter tido apoios, continua a apostar todas as cartas nos seus negócios, a lutar pela sua terra e a fazer ações de solidariedade para ajudar quem mais precisa.

 

Nelson é de Ponte da Barca, especificamente da freguesia de Oleiros “eu nunca saí da Barca, nunca fui para o estrangeiro, criei a minha empresa há 15 anos atrás. Empresa de máquinas de jogos: bilhares, matraquilhos. Iniciei-me também nos negócios de bares e cafés. Ao todo já tive 9 estabelecimentos. Os primeiros foram sempre fora da Barca. Cheguei a ter em Ponte de Lima, o bar académico”, explica.

O empresário conta com orgulho e paixão o porquê de continuar a apostar em Ponte da Barca “como disse anteriormente, eu nunca emigrei para trabalhar. Mas já estive nos Estados Unidos, na Suíça, na França e nunca vi uma zona como a do Jardim dos Poetas em lado nenhum. Para mim, é uma das zonas mais bonitas não só de Ponte da Barca, mas do mundo. E por isso continuo a apostar aqui. Apesar das dificuldades”.

Têm sido quase dois anos de pandemia nos quais os empresários do setor da restauração e da noite têm-se visto gravemente penalizados e para Nelson, a história não é diferente “os negócios aqui só dão de verão. No inverno há dias nos quais não vemos ninguém passar. Trabalhamos de verão para nos sustentarmos no inverno, e os apoios que os comerciantes recebem são inexistentes”, vinca.

Mas apesar das dificuldades Nelson não desiste. E ainda quando não gosta que se faça eco das ações de solidariedade que faz, elas são conhecidas e o empresário é visto como um homem que, apesar de estar a viver tempos difíceis, continua a não esquecer-se daqueles que mais precisam “é verdade que patrocino muitas coisas. No final do mês de agosto eu faço sempre uma doação às instituições. Faço duas doações por ano: uma em agosto e outra na altura do natal. Ajudo de muitas formas Mas não quero que as pessoas publiquem a dizer que fui eu”, garante.

 

Para o jovem empresário “quem ajuda de coração não precisa de dizer que ajuda, acho eu. Quem ajuda fá-lo de boa fé, e acho que não tem de dizer que ajudou. Sou uma pessoa muito simples, muito humilde, e faço as coisas de coração”. Assim, recorda que na última ação de solidariedade que organizou junto aos seus funcionários “vi que muitos barquenses passam necessidades. Recordo-me ainda hoje de casas que vi e que tenho certeza absoluta que chove lá dentro. Casas com telhados destruídos. Algumas nem janelas tinham. Só quem vai é que vê a necessidade que as pessoas têm em Ponte da Barca (…) custa-me dizer isso mas infelizmente, pelo que eu vi, há muita gente a passar necessidade em Ponte da Barca”, ressalvou.

Para Nelson ter encontrado tantas pessoas a passar necessidades no concelho foi revelador e garante que “eu acho que não só os empresários deviam ter esta veia de responsabilidade social, mas também a Câmara Municipal. Não é obrigação de ninguém, também não é a minha obrigação, mas vai do bom coração das pessoas. Porque uma coisa é eu ajudar com o meu dinheiro, outra coisa é essas instituições ajudarem com o dinheiro do Estado, não é como o deles. E eu tenho a certeza que há verbas para isso. Mas sou sincero: nunca pensei que no ano 2020/21 houvesse gente a passar essas necessidades. E quando digo necessidades, é mesmo necessidade de comida, de habitação digna, de medicação, de cuidados básicos. Mas isso da-me motivação para andar nesta luta e continuar a fazer coisas boas”.

E ainda garante que “eu estou convencido que se ninguém tomar a iniciativa aqueles que a devem tomar nunca o vão fazer porque eles só olham para o bem-estar deles e os outros, que se desenrasquem. Eu confesso que sou contra o sistema que estamos a viver não só na Barca, mas um pouco por todo o país. Nunca tive partidos, eu vou pela pessoa e é por isso que acredito que a Barca possa vir a mudar. Porque há pessoas que podem ajudar. Não só os particulares, mas acima de tudo, quem está no poder pode ajudar muito mais, e com menos esforço.

Nelson vem de uma família humilde e desde sempre se interessou pelo bem-estar das pessoas e confessa que nunca soube conviver muito bem com as desigualdades “venho de uma família humilde. Graças a Deus nunca passei fome, mas também nunca tive tudo. O meu pai e a minha mãe sempre trabalharam. Nunca fomos uma família rica, mas sempre fomos uma família humilde e não digo que houvesse todos os dias pão para comer, nem sempre bifes, mas havia sempre um prato de sopa” admite que se calhar pelas carências que experimentou quis, desde muito jovem, vingar na vida não só para o seu bem-estar, mas também para conseguir ajudar a quem não encontra ajuda.

Conta que desde que conheceu ao vivo os casos de pobreza que existem em Ponte da Barca  vive com a ideia de criar uma associação “essa ideia já a tinha há bastante tempo mas depois daquilo que vi, está ainda mais forte. E a ideia é criar uma associação para ajudar os mais desfavorecidos. Não sei se vai ser para este ano ou para o próximo, mas quero criar a associação para ajudar. Preciso também arranjar pessoas que queiram fazer parte da equipa para, genuinamente ajudar, porque hoje em dia é muito difícil encontrar quem ande por gosto, toda a gente anda à volta do dinheiro. Eu não, o dinheiro a mim não me faz mais feliz. Nós precisamos do dinheiro para as coisas do dia-a-adia, é óbvio; mas acho que quem anda por gosto chega mais longe. Eu tenho andado por gosto e o dinheiro tem-me aparecido, felizmente. Mas também acho que Deus ajuda quem anda de bom coração”.

 

Seguiu-se a pergunta : e para o Nelson existe algum arrependimento por continuar a apostar em Ponte da Barca, quando para muitos, é um concelho que ficou ‘parado no tempo’?

A resposta foi imediata “a vida é uma luta. Se ela for muito fácil não me dá gosto. Eu gosto de desafios. Desistir de Ponte da Barca, nunca, o importante é continuar a dinamizar o Jardim dos Poetas e a nossa Vila. E não vai ser fácil tirarem-me daqui. Eu sei que há muita gente que não percebe o porquê de eu estar aqui mas eu aqui vou continuar”, vinca.

Nelson refere ainda que “eu acredito muito nesta zona. Acho muito mal a Câmara Municipal apoiar por vezes pessoas que andam na vila só por interesses e dinheiro. Que andam aqui na vila, quando nem barquenses são, a explorar o povo barquense. E o resto dos empresários que estamos aqui o ano todo, a nos sacrificarmos, ninguém olha para nós. Gostaria que a Câmara apoiasse mais aquelas pessoas que estão a lutar pela terra. Que olhem para eles. Não estou a falar só de mim, mas há muitos comerciantes na Barca que foram esquecidos e quando há um evento onde poderiam ganhar algum, depois de meses tão difíceis, nem sequer são convidados Não percebo como é que essas coisas não vão a concurso. Ou então, ninguém os informa, e quando tentam informar-se, são barrados, desse tipo de eventos (…) restaurantes, cafés, pequenos comércios, devem ser todos respeitados. As pessoas têm de ser respeitadas. Assim devia ser”, reforça.

Para Nelson em Ponte da Barca existem grandes desigualdades “não são os comerciantes que são rivais. É a Câmara Municipal que cria estas desigualdades ao dar sempre aos mesmos. Há comércios que mereciam ser ajudados que nem têm clientes, mas isso a eles, dá-lhes igual”.

Deixou, ainda, uma declaração polémica “há senhores que pensam que mandam na Barca. E tentam comprar as pessoas, aliás, a mim já me tentaram comprar várias vezes, mas eu não estou à venda. A mim não me calam. O que eu tiver a dizer eu digo. E eu sou contra essas injustiças. A Barca tinha de ser igual para todos, mas não é. Infelizmente a Barca é mais para uns do que para outros. Eu sou contra esse sistema ditador, porque estamos numa democracia mas infelizmente, ainda há pessoas que pensam que mandam nos outros”, vinca.

O jovem empresário aproveitou ainda para deixar uma mensagem a todos os barquenses “quero dizer aos barquenses que tenham esperança. E que acreditem. Que não se esqueçam de quem os fez passar mal estes últimos anos e que reflitam para o presente. Que tudo pode mudar. Quem anda de bom coração vence sempre, esse é o meu lema”, referiu.

O Poetas Caffé anima o  Jardim dos Poetas todos os dias do ano. Durante todo o verão as noites de sábado são com música ao vivo, numa das esplanadas com a vista mais privilegiada da vila. O convite do empresário é para irem desfrutar e viver “estas noites de sábado com música ao vivo numa das zonas mais linda da Barca, até ao final de setembro”, culminou.

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