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Entrevista: “as subculturas do cancelamento e do ódio estão a diminuir a tolerância à diferença”, afiança investigador da Universidade do Minho

Para o investigador social Pedro Rodrigues Costa, da Universidade do Minho, “com o adensar das lógicas digitais criaram-se subculturas. A do cancelamento é uma delas. Outra é a do ódio. Estas duas subculturas estão a diminuir a tolerância à diferença. Ao fazê-lo, estão a ser geradas bolhas sociais de iguais, de pessoas que consomem as mesmas ideias e que não lidam muito com a diferença de opinião”.

No entender deste investigador, “estamos em permanente autoconsumo, num narcisismo cíclico, e isto em nada beneficia o combate às desigualdades (raciais, étnicas, sociais, económicas, etc.). Pelo contrário, vivemos uns contra os outros, na maioria das vezes por imitação e não por reflexão ou entendimento”. É que “a ponderação e a reflexão estão a ser substituídas pelos extremismos. As dinâmicas sociotécnicas que permitiram a evolução desde o mero click para desligar algo até à criação de subculturas impulsionadas por um certo modo de estar no digital, estão a criar demasiados posicionamentos antagónicos que apenas fazem florescer fações, separatismos e extremismos”.

Para este especialista das redes digitais, “com a cultura do cancelamento e com a cultura digital do ódio aumentamos o nível social de moralização”. Nesta entrevista exclusiva ao Espectador, o investigador conta-nos que “moralizar é contrário à ideia de diversidade que se vinha a propor ao longo do século XX com o florescimento da ciência. A moralização era a estratégia medieval para a ausência de respostas lógicas e científicas. Com o atual desenvolvimento científico e com a informação disponível, a expectativa era a de que os níveis de moralização fossem mais baixos e a ponderação maior. Aliás, é precisamente isso que a cultura científica preconiza: ponderar, porque o que hoje se sabe amanhã pode estar desatualizado”.

No entender deste investigador, “trata-se de um retrocesso civilizacional, sobretudo se pensarmos que o mais lógico deveria ser a existência de uma maior cultura científica, tudo menos moralizadora. A ciência preconiza o conhecimento objetivo, jamais moral ou emocional. Ora, a dinâmica das redes digitais, ao invés de objetividade, tem fortalecido a subjetividade e a geração de grupos morais e de processos de imitação de base moralizadora. Eu “detesto quem…” ou “cancelo quem…” pensa diferente ou possui diferentes valores morais. Esta lógica é cada vez mais comum”.

Estas e outras conclusões vêm no seguimento de dois estudos, em breve publicados, que se focaram em torno da imitação do ódio e da exclusão do diferente nas redes digitais. Para este sociólogo, “os fundamentos morais, inscritos em bolhas grupais e sem capacidade de tentarem perceber o outro, estão na base dos ódios e cancelamentos atuais. A objetividade cedeu o lugar a crenças subjetivas, imitadas em corrente e sem grande esforço de reflexão”. Em seu entender, “é até um contrassenso se pensarmos no conjunto de filmes populares recentes que se debruçam sobre as vidas e os dilemas dos vilões, tentando perceber-lhes o sentido da vilania. Dá a sensação que as pessoas não entenderam o que está por detrás das tomadas de posições individuais, ou então que não têm qualquer sensibilidade por aqueles que pensam diferente. Quando se pensa diferente é porque existem razões individuais para isso. E isso deve ser respeitado. Não respeitar ou cancelar apenas demonstra falta de sensibilidade social e de empatia. Falta muita empatia ao mundo atual”.

 

Este investigador, que viu recentemente aprovado e financiado pela FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia) um estudo sobre os fundamentos morais nas conversas digitais sobre os problemas do aquecimento global, refere que “o período da pandemia tem sido pródigo na imitação de ódios e de mecanismos de cancelamento tendo por base um conjunto de informações ou posturas não científicas. E neste aspeto os governos têm responsabilidades. O modo autoritário e confuso como tratam as sugestões da OMS retiram credibilidade às suas ações, deixando os sujeitos também confusos e sem saber no que acreditar. Daí o agarrar à moralização, à tal incapacidade de ler o mundo através da ciência. neste aspeto, o mundo tornou-se quase preto e branco: de um lado, os “negacionistas”; do outro, os “covideiros”. Esta dualização tem gerado uma série de cancelamentos, sociais e relacionais. Por exemplo, a atriz Jennifer Aniston afirmou recentemente ter cancelado os amigos que não se vacinaram. Por seu turno, muitos dos que discordam do modo de gestão da pandemia cancelaram pessoas que se tornaram “covideiras”. Este cancelamento recíproco, devido a uma forte moralização social das posições, acelerada é verdade por leis e medidas com viés segregador, tem contribuido para um momento de extremismos e dualismos. Ao contrário da ponderação e da objetividade preconizadas pela ciência enquanto fundamento, reina um subjetivismo perigoso. As redes digitais, ao acelerarem a criação de bolhas de iguais e de grupos antagónicos, estão a fazer florescer perigosamente a moralização”.

 

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