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Ser mulher num mundo de homens “o ramo funerário é difícil. Mas não me sinto menos competente do que qualquer homem para fazer o serviço”

Ana Malheiro é uma mulher apaixonada por trabalhos que nem sempre são vistos como ‘aptos’ para mulheres. É uma mulher empreendedora. Que não tem medo de desafios. Atualmente, é gerente da Agência Funerária do Lima, em Ponte da Barca. O Espectador quis conhecer mais da história desta mulher que enfrenta a sua profissão com espírito de missão. E que é, para muitos, um exemplo de força e determinação. 

 

A empresária, ao longo da sua vida tem passado por várias experiências profissionais. Todas elas sempre pouco convencionais para serem geridas por mulheres “sou uma mulher que gosta de desafios. Sou empreendedora, sou aventureira. Gosto de trabalhos que ‘puxem’ por mim. Trabalhos que me desafiem. Eu gosto disso. Quando era nova não fui para a tropa porque os meus pais não foram apologistas.  O meu primeiro emprego foi numa estação de serviço com bomba de gasolina. Fui para o escritório, no primeiro ano consegui aguentar-me no escritório. Mas no segundo ano não mudava pneus porque não me deixavam, porque senão! Fazia de tudo um pouco na área de estação de serviço. Até que fiquei responsável pelo posto de abastecimento. Eu gosto de desafios. Não gosto de coisas fáceis. Tenho de ter trabalhos de responsabilidade. Que me deem luta”, afirma.

Atualmente Ana Malheiro é a gerente da Agência Funerária do Lima, um ramo que provavelmente para muitos, não seja para mulheres. Será fácil estar à frente de uma empresa que, desde há muitos anos, é gerida principalmente, por homens?

“eu não vou dizer que não tenho de ter alguma ‘estaleca’ para esta profissão. Não vou dizer que não, porque se calhar em algumas situações noto que as pessoas podem ficar do gênero: mas ela é mulher! Mas eu não tenho problema nenhum com isso. Não me sinto menos competente do que qualquer homem para fazer o serviço que eu faço. Considero que como mulher, até tenho vantagens acrescidas, porque a nossa sensibilidade é inata. E porque considero que  tenho todas as habilitações e competências para  para o fazer o meu trabalho melhor ou igual a um homem. Não tenho problema nenhum com isso”, afirma.

 

A empresária está no leme da Agência Funerária do Lima há três anos “esta funerária já existia no mercado há mais de 30 anos. Quando decidi adquiri-la estava praticamente parada. Nós tentamos transformá-la em algo diferente. Até porque tudo aquilo que tinha já era um bocado antigo. Os métodos de trabalho eram antigos.  Fiz formações atuais. Formação em várias áreas incluindo a tanatopraxia, (técnica moderna de conservação de corpos). Temos de estar sempre em constante formação. Em constante crescimento”, aponta.

A empresária refere que o ramo funerário desde sempre lhe despertou o interesse “não sei explicar o porquê, mas desde sempre me despertou interesse, desde muito nova. Eu gosto deste trabalho porque acho que é de extremo valor ser a última cuidadora de uma pessoa. Sou eu quem faz os últimos carinhos, trata das últimas vestes, os últimos retoques. E isso para mim, é muito importante”, conta.

Para a Ana e a sua equipa “o mais importante é manter a excelência do trabalho e fazê-lo com a maior dignidade possível porque é a última homenagem àquela pessoa e por isso, tem de ser com o maior respeito possível. Tratar a família com o afeto. Isso é a base fundamental para que tudo corra bem. E no fim de cada serviço, ouvirmos um: obrigada por tudo! É bom de ouvir e fico grata”. 

Afirmando ainda que “o que mais me preocupa é a humanização deste serviço. Os sentimentos. Tudo é importante, tudo é um conjunto. As condições que nós oferecemos também são importantes. Aqui na nossa funerária temos todas as condições para que as pessoas possam ter todo o conforto na hora da despedida. Temos duas casas mortuárias onde os familiares podem estar com toda a tranquilidade. Ambas dotadas de ar condicionado, sistema de som e serviço de cafetaria. Tudo isso é importante, mas o afeto e o apoio, são fundamentais”, frisa.

E como se faz o acompanhamento e o tratamento de proximidade e carinho quando estamos a atravessar uma pandemia?

“eu sou muito aquilo que a outra pessoa quiser receber de mim. Se eu sentir que aquela pessoa está a precisar e vai aceitar, eu dou um abraço. Claro que sigo todas as regras e até à data tem corrido tudo bem, mas naquela hora em que tu vês que a pessoa precisa de um abraço e de uma mão firme quando está a fraquejar, eu dou. Nós por causa da pandemia temos de seguir as regras, manter o afastamento, mas numa situação destas não é fácil. Porque o sofrimento é muito, a dor é muita, e, às vezes, a necessidade de um abraço, impera”, garante.

A morte faz parte da vida. É o ciclo natural e o destino traçado para todos nós. Não é um segredo para ninguém. Mas quando o serviço tem de ser feito a um amigo que partiu? Como se gerem as emoções?

“todas as pessoas são importantes, mas quando calha fazer um serviço de alguém de quem eu gosto muito ninguém pode fazer o trabalho melhor do que eu! Faço com o maior sentimento possível. Custa muito. Mas sei que nesse momento ninguém poderia tratar aquela pessoa melhor do que eu. Par lhe dar a despedida que merece. Digna. Porque nesse momento acima da amizade, está o meu profissionalismo”.

O ramo funerário julgamos seja uma profissão emocionalmente difícil. Nesse sentido, como faz para gerir as suas emoções e no fim de um serviço, quando fecha a porta e tudo acaba, voltar para casa?

“confesso que levo muito do meu trabalho para casa. Há situações de situações. Nós temos de saber separar o trigo do joio e saber que tenho uma família, uma filha pequenina que precisa de toda a minha atenção. Mas eu tenho os meus momentos para me limpar. Momentos nos quais estou sozinha e ali desabafo. Se tiver de chorar, choro. Mas tento fazer isso afastada do meu seio familiar. Há coisas que me acompanham durante algum tempo e eu depois vou sabendo organizá-las, vou sabendo arrumar. No entanto, há outras que sei me vão acompanhar para a vida”.

Ana Malheiro confessa sentir-se grata pela profissão que tem “sinto-me grata pelo trabalho que tenho, pelas amizades que vou construindo no seio de uma profissão que é muito difícil, mas de onde se consegue tirar coisas positivas. São amizades puras, que ficam. Que nascem no pior momento, mas que florescem. Eu marco-os, porque estou com eles num momento muito difícil, mas eles também me marcam a mim”, afirma emocionada.

A Agência Funerária do Lima é uma empresa em crescimento, num ramo altamente competitivo “o único senão desta atividade é que não é um ramo fácil. É um ramo com muita competitividade e  não sei se o facto de ser mulher é algum obstáculo. Eu quero acreditar que não”, afirma.

E deixa uma mensagem “a mim não me importa que o meu crescimento seja lento, mas sólido. Com o tempo, as pessoas vão conhecendo o serviço e vão reconhecendo que tenho muito para dar e que o nosso serviço é um bom serviço. Não ficamos atrás de ninguém, não somos melhores nem piores, somos nós.  Temos o nosso serviço”, conclui.

 

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Comment

  1. Comentários para que, e uma pessoa que sabe lidar com o sofrimento dos outros,bem haja🙏🏻🙏🏻

  2. Assim é que é falar ! . . .
    Parabéns pela entrevista, mas, sobretudo, pelo seu conteúdo, que revela não só uma grande determinação e capacidade, como um exemplo de vida.
    Parabéns.
    Muitas felicidades.

  3. De tudo que li so tenho a dizer Parabéns e sucesso.

  4. Parabéns não mudem sejam sempre vocês com socesso para sempre

  5. Não duvido de cada palavra,uma grande Mulher.
    Uma mulher especial
    Desejo lhe muita saúde e sucesso…!

  6. Nunca travalhei com vocês e que tão cedo não precise,, que é bom sinal mas pelo que tenho visto gotei do vosso travalho mas gstei muito,, feito com muita delicadeza e carinho é pessoa com qualidade que nessas horas tão difíceis é isso que conta muita força mas vai correr tudo bem ,,, porque vocês são pessoas muito simpáticas,,, boas festas Feliz Ano Novo e muitas felicidades beijinho…..que seja um sucesso,,, o vosso travalho,,,

  7. Que a Luz guie sempre os teus passos num caminho, por vezes, feito de uma escuridão imposta, mas que não és tu… tarefa importante escolheste para desempenhar nesta vida: abrir um pouco a janela para outra realidade que nos acompanha em todos os momentos e que habitualmente evitamos pensar. Beijinho no teu coração feito de coragem, determinação e solidariedade 💖

  8. Você sempre foi uma mulher de garra e muito profissional,com bom coração continues a ser a mulher que tem sido beijinhos a toda a familia

  9. Mulher de fibra e profissional e com um coração enorme beijinhos para toda a famia

  10. Pessoa humilde atenta muito profissional sempre a pensar no bem estar da família enlutada e isso é o principal. Vais conseguir mostrar que és tão ou melhor que um homem 😘

  11. Não tenho dúvida de que li, sei que és uma mulher de garra, sei quê és e serás uma profissional de primeira, como já pode assistir ao vosso prosionalismo, que é 5⭐. É só tempo das pessoas perceberem que o teu trabalho consegue ser tão bom, quanto de um homem. Vai em frente com essa garra, força, dedicação e coragem. Parabéns pela pessoa que és.

    1. Post comment

      Jose Carlos Esteves Fernandes Alemanha. says:

      Ana ja teve presente em trabalhos esecutados por vos e vi uma grande capacidade e umildade isso conta muito, pena que muitas pessoas nao apostem nos vossos cervicos, mas com o andar do tempo tudo vai mudar, Parabens Ati e aus teus proficionais. Forca.